Blog EntryA desinformada retórica ateístaOct 29, '08 11:05 PM
for everyone
Estou ressuscitando o tema de um post antigo porque estou cada vez mais de impaciente com a retórica desinformada da comunidades de ateus da web, tão chatos quanto aquele pessoal que vem bater à minha porta domingo de manhã para salvar minha alma.

Vou começar traduzindo um comentário que fiz originalmente em inglês meio castiço, em um blog que é muito bom quando não começa com o blablabla ateísta:

"Estive lendo suas postagens já por um bom tempo e só recentemente cheguei a uma conclusão.

Sei que você vai me odiar por isso, mas ei-la:

(1) A Ciência é cética, não ateísta. Qualquer um que procure na Ciência uma justificativa ou fundamento para sua ideologia ateísta deveria aprender um pouco mais sobre Ciência,

(2) O ateísmo é, portanto, uma religião como outra qualquer, cheia de certezas irracionais e vazia de qualquer outro fundamento que não seja o desejo dos ateístas de NÃO crer em Deus.

Eu disse que você me odiaria por isso, mas esses seus argumentos estão ficando cada vez mais repetitivos e desinformados.

As melhores coisas que a Ciência pode fazer sobre Deus são declarações céticas como "Não há nada que podemos afirmar sobre esse assunto", "esse assunto de Deus não é sujeito a estudos científicos", etc.

Mesmo que um cientista, ou muitos cientistas, ou mesmo TODOS os cientistas declarassem publicamente suas visões de mundo ateístas, isto não seria suficiente para afirmar que a Ciência propriamente dita é ateísta.

A Ciência, muito diversamente das religiões (inclusive o ateísmo) não finge que sabe cada pequena coisa no Universo. Ela é movida pela simples (e fantástica) ambição de aprender, no longo prazo, tudo o que é possível de ser conhecido no Universo.

A Ciência não exclui a hipótese de que, talvez, haja coisas que existem mas, infelizmente, não sejam possíveis de conhecer com qualquer método ou instrumento concebivel, agora ou em qualquer tempo no futuro.

Assim, cientificamente falando, as pessoas precisam aceitar que sempre poderá haver algo como um "Deus" nesse hipotético conjunto de coisas existentes mas incognoscíveis.

Antes que alguém grite: eu não estou defendendo a religião. Se Deus é no reino das coisas incognoscíveis, então todas as religiões são contrafações, pois fingem conhecer intimamente algo que elas não podem saber de maneira alguma!"

Indo além: só quem nunca trabalhou produzindo Ciência, nunca leu uma revista científica ou sequer uma bula de remédio, acredita que a Ciência "prova" a não-existência de Deus.

Para começar, ver a Ciência provando inequivocamente alguma coisa não é um evento tão freqüente quanto sugere a Superintessante.

Quem já trabalhou um pouquinho que seja sob a vara do método científico, sabe muito bem que produzir Ciência é, na sua maior parte, um trabalho de aproximações, estimativas, probabilidades e margens de erro. O discurso científico é enunciado necessariamente sob o império de definições restritas - a Ciência deixa para os filósofos o encargo das definições amplas. A verdade da Ciência é contingencial, isto é, válida apenas sob um determinado conjunto de circunstâncias variáveis. Mude as variáveis e a verdade muda.

Depois, a própria Ciência se encarrega de definir os próprios limites. Vamos deixar de lado a impossibilidade - "cientificamente demonstrada" - de saber a posição exata de partículas subatômicas, e vamos para o prosaico reino das mesquinhas preocupações humanas. Pergunte a cientistas bem-informados se...

1 - É possível prever se vai chover em Pindamonhangaba no dia de meu aniversário no ano de 2047?
2 - É possível calcular antecipadamente o placar de uma partida de basquete?
3 - É possível dizer se você será vítima de um assalto em algum dia dos próximos 5 anos?
4 - É possível afirmar que algum dos leitores deste post ganhará algum prêmio na Mega Sena nos próximos 10 anos?

Nem preciso dizer qual será a resposta para todas as perguntas.

A Ciência só pode afirmar que, com grande probabilidade, vai chover algumas vezes em Pindamonhangaba entre hoje e 2047. Pode até estimar quantas vezes e errar por pouco.

A Ciência também permite prever qual o time tem maior chance de ganhar uma partida basquete.

Também pode calcular a probabilidade de que alguém sofra um assalto num período de cinco anos a contar de hoje.

Ou ainda, a probabilidade de que pelo menos uma pessoa, em um dado conjunto de pessoas, ganhe algum prêmio na Mega Sena nos próximos 10 anos.

As singelas perguntas acima, da maneira como estão formuladas, envolvem variáveis demais, sendo que muitas dessas variáveis não são sequer quantificáveis.

Por exemplo, o placar de uma partida de basquete depende, além de incontáveis milhões de variáveis objetivas, da "motivação" dos jogadores e da equipe. Como inserir uma variável tão volátil como a "motivação" (um time motivado no primeiro quarto pode virar subitamente um time desmotivado no segundo quarto, como quem já assistiu qualquer partida de qualquer esporte pode testemunhar) em um modelo que permita uma margem mínima de previsibilidade?

Mesmo com todo o inegável avanço da Ciência, foguetes explodem antes de serem lançados, aviões cheios de passageiros caem, pessoas são atingidas por raios e até cardiologistas conceituados morrem de enfarte.

Um argumento recorrente e muito mal empregado pelos ateus na defesa de suas teses é o princípio de Occam: "quando duas teorias concorrentes podem ser ambas adequadas para explicar um dado fenômeno, deve-se preferir a mais simples".

O princípio de Occam é prático. Mas significa apenas que, à falta de um critério melhor, deve-se utilizar a explicação mais simples até que novos dados sugiram o contrário, e NÃO que a explicação mais complexa seja necessariamente falsa em todas as ocasiões! Trata-se apenas de uma regra de bom-senso para guiar ações em situações de incerteza.

Outro dado que os ateus esquecem em seus discursos inflamados quando citam as realizações tecnológicas como provas da superioridade da Ciência é que, de fato, NÃO é necessário saber exatamente como e porque uma coisa funciona para que ela possa funcionar!

Besouros voam sem saber aerodinâmica, patos flutuam sem saber nada sobre construção naval.

E na bula do remédio cientificamente produzido pela indústria farmacêutica e cientificamente receitado pelo seu médico, provavelmente vem escrito uma frase como "o mecanismo de ação da [NOME DO COMPONENTE DA FÓRMULA] não é bem conhecido..."

Há muito mais besteirol no discurso ateísta, mas vou parando por aqui. Acho que, por hora, podemos afirmar que é preciso saber muito pouco sobre Ciência em geral para afirmar que ela "prova" que Deus não existe e que, portanto, os ateus não são menos cegos do que o fiel rebanho da maioria das religiões que tanto criticam.

30 CommentsChronological   Reverse   Threaded
lonjuras wrote on Oct 29, '08, edited on Oct 30, '08
(2) O ateísmo é, portanto, uma religião como outra qualquer, cheia de certezas irracionais e vazia de qualquer outro fundamento que não seja o desejo dos ateístas de NÃO crer em Deus.
O ateísmo não é uma religião. E não é o desejo de não crer em deus.
Eu poderia dizer que há vários ateísmos. Poderia mencionar a distinção que fazem por aí entre ateísmo forte e ateísmo fraco.
Mas prefiro falar da minha concepção de ateísmo. É a seguinte: ser ateu é nascer em um mundo onde a maioria das pessoas fala de um ser que você nunca viu, nunca sentiu, nunca ouviu e em que você nunca teria pensado na vida se não fossem as pessoas à sua volta falando dele. Você vê, sente e ouve as pessoas que falam desse tal deus, mas o próprio, não.

Ser ateu, portanto, é simplesmente viver sua vida sem nem pensar nessa coisa chamada deus. Entretanto, como você vive em sociedade, e como a maioria não apenas fala dele, mas cria instituições baseadas na existência da criatura e, ainda, age sobre outras organizações em nome dele; e como, além disso, ainda influenciam diretamente a vida de pessoas individualmente e inclusive a sua, você, muitas vezes, começa a sentir a necessidade de entrar em algum tipo de conversa ou debate com essas pessoas.

Mas deus, esse aí, continua um conceito inventado pelas outras pessoas, alheio a você, e presente na conversa apenas. Podemos conversar sobre unicórnios, já dizia Aristóteles. Um ateu e um teísta podem, da mesma forma, conversar sobre algum deus.
alexiskauffmann wrote on Oct 30, '08
Sua resposta apenas reforça o argumento, Lu.

Eu tratei exclusivamente de um assunto no post, há apenas uma tese ali: "A Ciência não fundamenta ou justifica o ateísmo".

Nesse assunto, você não tocou.

Esse é um sintoma freqüente em discussões que envolvem desejos ou motivações emocionais: desviar-se do tema discutido.

E esta frase: "ser ateu é nascer em um mundo onde a maioria das pessoas fala de um ser que você nunca viu, nunca sentiu, nunca ouviu e em que você nunca teria pensado na vida se não fossem as pessoas à sua volta falando dele. Você vê, sente e ouve as pessoas que falam desse tal deus, mas o próprio, não"

Há muitas outras coisas que você nunca viu, nunca sentiu, nunca ouviu e nunca teria pensado na vida se não fossem as pessoas à sua volta falando disso. Eu não acredito em "entidades da sociedade civil organizada", por exemplo, por mais que se fale nisso.

Se há muitas outras coisas que se enquadram no mesmo caso que você descreveu, e você não funda um movimento a-essas-outras-coisas, podemos supor, com grande probabilidade de acerto, que o seu ateísmo se funda antes de mais nada em um "desejo-de-que-não-seja-verdade".

"Mas deus, esse aí, continua um conceito inventado pelas outras pessoas, alheio a você, e presente na conversa apenas."

Que conceito não é inventado pelas pessoas? O próprio ato de conceituar é humano. Essa constatação não significa que não existam coisas independentes do discurso.

O conceito de calo é uma invenção humana. Nem por isso o calo no meu dedão deixa de doer.

"Um ateu e um teísta podem, da mesma forma, conversar sobre algum deus."

Eu não afirmei que era teísta. Embora você também não tenha afirmado, a presença dessa frase no texto, em seguida a uma frase na segunda do plural (podemos conversar sobre unicórnios) sugere a intenção de acusar-me disso.

Esse, aliás, é outro sintoma freqüente em discussões que envolvem desejos e motivações emocionais: atribuir ao autor um rótulo que ele próprio não reivindicou para si.
lonjuras wrote on Oct 30, '08
Eu tratei exclusivamente de um assunto no post, há apenas uma tese ali: "A Ciência não fundamenta ou justifica o ateísmo".

Nesse assunto, você não tocou.
Toquei, mas como vemos o mundo e 'deus' por pontos de vista completamente diferentes, você não percebeu. Se a existência ou não de deuses não é uma questão para mim, justamente por eu ser atéia, a relação entre ciência e ateísmo também não é uma questão. Aliás, o próprio ateísmo não é uma questão, porque 'ateísmo' é mais um conceito que usamos nas conversas sobre deuses e religiões. Faz parte do mesmo campo semântico. Sem palavras e conceitos, não nos comunicamos. Mas é como eu disse antes: não é porque existe a palavra que a coisa estará lá.

Eu só sou atéia em relação à afirmação por alguns de que há uma coisa chamada 'deus'. Não fosse essa afirmação, o conceito de ateísmo nem existiria. E sem deuses, sem religiões e sem teísmos ou ateísmos, viveríamos, ao que parece, com mais tranqüilidade (embora, nunca, nunquinha, em paz. Essa, sim, é a maior ficção de todas).
alexiskauffmann wrote on Oct 31, '08
"Ser ateu, portanto, é simplesmente viver sua vida sem nem pensar nessa coisa chamada deus. Entretanto, como você vive em sociedade, e como a maioria não apenas fala dele, mas cria instituições baseadas na existência da criatura e, ainda, age sobre outras organizações em nome dele; e como, além disso, ainda influenciam diretamente a vida de pessoas individualmente e inclusive a sua, você, muitas vezes, começa a sentir a necessidade de entrar em algum tipo de conversa ou debate com essas pessoas."

Não existe conversa sem pensamento. Se todo mundo fala em Deus e você até conversa sobre ele, como pode dizer que "Deus não é uma questão", que "não penso em Deus"? Está sofismando muito mal desta vez, Lu.

E esta frase aqui está péssima: "Toquei, mas como vemos o mundo e 'deus' por pontos de vista completamente diferentes, você não percebeu."

Você não sabe qual é meu ponto de vista sobre o mundo e deus para poder afirmar que é completamente diferente. Em segundo lugar, não tocou não, com esse tipo de argumento bobo não há papo que vá adiante.
joaobatistalago wrote on Oct 30, '08
Prudente, inteligente e muitíssimo reflexivo o teu texto.
Parabéns, Alexis.
alexiskauffmann wrote on Oct 30, '08
Prudente, inteligente e muitíssimo reflexivo o teu texto.
Parabéns, Alexis.
Opa! Obrigado por vir prestigiar, mais uma vez, um post aqui neste espaço! Sobre o "prudente", é coisa de quem sabe que vai pisar em campo minado, abrindo a guarda para ataques tanto de adeptos a religiões oficiais quanto dos adeptos à religião não-assumida do ateísmo...
amigogiba wrote on Oct 30, '08
Ótima abordagem.
Parabéns!
alexiskauffmann wrote on Oct 30, '08
Ótima abordagem.
Parabéns!
Bom vê-lo por aqui! Volte sempre!
renatahiromi wrote on Oct 30, '08
Concordo!
alexiskauffmann wrote on Oct 30, '08, edited on Oct 30, '08
Concordo!
Natinha, numa palavra só mataste saudades! Apareça mais!
renatovwbach wrote on Oct 30, '08
Oi, Alexis.

Realmente seu texto traz doses corretas de comedimento e brilho - o que só facilita a discussão. Se é que há discussaõ, agora, posto que o seu argumento é mais que esclarecedor, é verdadeiro.

A Ciência de fato não tem condições de afirmar que Deus não existe. Até pelo contrário, trabalhos como o do Stephen Hawkings abrem espaço para um conceito, digamos, científico, de deus.

Mas os ateus ferrenhos são como os kardecistas fanáticos (que^enxergam espíritos e luzes em qualquer evento mais ou menos trivial) ou os pupilos do Erich von Dänniken (o autor do outrora famoso "Eram os deuses astronautas?"), vêem chifres e enxergam antenas: vêem o vazio e enxergam a inoperância de Deus.

Mas não entendam como preconceituosa a frase anterior: a lista é grande e não excludente, todos podemos ser vítimas de nossa falta de visão. Ateus, agnósticos, católicos, umbandistas, taoístas e islamitas. Como ao adotar uma religião em particular escolhe-se um "caminho" (daí a palavra "conversão"), a tendência é mesmo adequar o mundo a esta visão. Pelo menos para nós menos privilegiados.
alexiskauffmann wrote on Oct 30, '08
Como ao adotar uma religião em particular escolhe-se um "caminho" (daí a palavra "conversão"), a tendência é mesmo adequar o mundo a esta visão.
Pois é. Nada contra religião alguma. Que cada um pense o que quiser e permita que o outro pense o que quiser sem que um fique enchendo a paciência do outro... E do distinto público que entra num fórum ou num blog apenas para ler alguma coisa interessante e se vê no meio de um fogo cruzado entre fundamentalistas de todas as tendências.
arabesc wrote on Oct 30, '08
Foi mais ou menos como te falei no outro post... desculpe... deveria ter lido esse antes, né? Mas enfim... a ciência não é o contra-argumento religioso. É impossível comprovar a existência ou não de um deus criador ou de deuses ou de qualquer tipo de fé. Mas podemos, graças à ciência (apesar de todos os seus problemas epistemológicos do método científico) refutar preceitos irracionais de certas religiões. Há um ditado talvez ateu, talvez cético, não sei bem, que diz assim - Se deus opera milagres, se tudo é possível para aquele que crê e se aquele que padecer de um mal rezar com fé será curado, por que deus nunca curou um aleijado? Bem, esse tipo de proposição realmente desmonta os dogmas de algumas religiões. Se tenho uma prova amanhã sobre matemática financeira, não sei nada sobre o assunto e peço a um deus que me ajude, parece que isso não faz diferença significativa nos resultados que obterei. Eu poderia pedir para uma estátua, para um pé-de-coelho, para uma ferradura. Mas nenhum desses fatos, aparentemente, interferem na nota obtida.São evidências. A questão colocada parece ser a seguinte: um ateu precisa ter fé para não acreditar em deus? Depende de como esse sujeito está encarando o ateísmo. Se for para afirmar com dogmatismo que deus não existe, então o cara realmente está sendo um idiota. Mas se estiver usando do argumento científico para dizer que muito provavelmente deus não existe, então talvez esteja mais próximo de um posicionamento razoável. Eu, por exemplo, não acredito em duendes e fadas. Nem no Chupa-cabras. Nem em E.Ts. Muita gente por aí afirma debochadamente que essas criaturas não existem e riem escandalosamente de quem crê. Essas pessoas, então, estão usando da fé igualmente cega dos crentes? É possível. E já que nunca teremos como saber, a postura mais inteligente e parcimoniosa seria a de afirmar que "acho provável que não exista um chupa-cabras, mas não tenho como comprovar". Porém, quantas pessoas no mundo fazem isso? É raro. Até porque a vida prática não comporta explanações tão longas. O conceito de ateímo é bem flutuante. Para alguns ateísta é apenas o oposto à teísta (a-theos = sem deus/ theo = com deus). Dessa forma, resposta como "não sei" à pergunta "deus existe" para alguns seria uma posição ateísta. Existe o ateu agnóstico, o que não crê em deus, porém afirma que esse conhecimento é impossível de ser atingido. Ultimamente tenho me aproximado dessa maneira de pensar, mas não me fechando nela. A única maneira de fugir desse tipo de paradoxo, é ser cético porque o cético é simplesmente aquele que duvida. Porém nem o ceticismo escapa às críticas. E há sempre o risco de se tornar cético demais, beirando o cinismo. Por isso fico sempre flutuando entre algumas posições. E repetindo o que pus no outro post - Se a ciência comprovasse a não-existência de deus, não estariamos aqui discutindo isso, né não? Não se discute pontos-finais. Um bj grande.
alexiskauffmann wrote on Oct 30, '08
Sensata.

Vale esclarecer o seguinte. O ateísmo continua sendo uma religião. Inclusive porque não consegue ser melhor do que a religião por nenhum critério.

Não é preciso ser exaustivo. Veja as atrocidades cometidas por Estados ateus: censura, prisões arbitrárias, torturas, execuções. Qualquer horror que os Estados com religiões oficiais tenham feito, os Estados ateus fizeram igual ou pior.

Quais são os Estados em que a tolerância e a pluralidade são conceitos um pouco mais palpáveis na vida real? Justamente, os Estados LAICOS. "Agnósticos", usando um conceito um pouco mais elástico para essa palavra.

Que Deus exista ou não exista, esse tipo de Estado está nem aí.
alexiskauffmann wrote on Oct 30, '08
Complementando a resposta anterior, redigida com pressa (agora estou sem pressa, mas cansado; não sei se vai fazer muita diferença):

"- Se deus opera milagres, se tudo é possível para aquele que crê e se aquele que padecer de um mal rezar com fé será curado, por que deus nunca curou um aleijado?"

Se nada posso saber sobre Deus - sequer afirmar se existe ou não - esta questão está pre-judicada.

"Eu, por exemplo, não acredito em duendes e fadas. Nem no Chupa-cabras. Nem em E.Ts."

E eu não acredito em sociedade civil organizada. Mas, cientificamente, a única assertiva válida é "não é possível afirmar que existam duendes, fadas, chupa-cabras, ETs ou sociedade civil organizada".

"Não é possível afirmar", infelizmente para os ateus e incrédulos de todas cores, inclusive os que rejeitam a sociedade civil organizada, NÃO IMPLICA o "portanto, devo negar".

Se tenho uma prova amanhã sobre matemática financeira, não sei nada sobre o assunto e peço a um deus que me ajude, parece que isso não faz diferença significativa nos resultados que obterei. Eu poderia pedir para uma estátua, para um pé-de-coelho, para uma ferradura. Mas nenhum desses fatos, aparentemente, interferem na nota obtida."

Isso pode ser fato se a variável "Conhecimento de matemática financeira" for igual a "Nada sei sobre o assunto". Mas e naqueles casos em que o estudante sabe tudo mas tem um "branco" na hora da prova? Você pode mesmo afirmar que uma oração prévia não reduz a incidência de "brancos" em estudantes que dominam um assunto? Caso a correlação exista, você pode provar que rezar para uma ferradura, um pé de coelho ou um Deus de uma religião qualquer é igualmente efetivo?

Bem, vamos começar reunindo uma amostra aleatória de estudantes de matemática financeira igualmente competentes e...

Resumindo, a abordagem ateísta é, na maior parte das vezes, irracionalista e anticientífica. Afirmam-se coisas questionáveis como se fossem evidentes.

Fora que, entre os exemplos que mencionei na postagem, incluí propositadamente o exemplo de um time de basquete (ou qualquer equipe esportiva) em que a presença do fator "motivação" não pode ser racional ou cientificamente desprezado. Pois bem, a hipótese ateísta reza que "Não há relação entre a realização de orações antes de partidas de basquete e a motivação do time durante o jogo". Para que essa hipótese seja considerada científica, é preciso testá-la contra a hipótese nula: "Há relação entre a realização de orações e o desempenho motivacional de uma equipe esportiva durante uma partida". Portanto, vamos pegar uma amostra aleatória de jogadores de basquete igualmente competentes e...

A Ciência é foda.
renatovwbach wrote on Oct 30, '08
A Ciência é foda.
É. Mesmo.
arabesc wrote on Nov 3, '08
Complementando a resposta anterior, redigida com pressa (agora estou sem pressa, mas cansado; não sei se vai fazer muita diferença):

"- Se deus opera milagres, se tudo é possível para aquele que crê e se aquele que padecer de um mal rezar com fé será curado, por que deus nunca curou um aleijado?"

Se nada posso saber sobre Deus - sequer afirmar se existe ou não - esta questão está pre-judicada.

"Eu, por exemplo, não acredito em duendes e fadas. Nem no Chupa-cabras. Nem em E.Ts."

E eu não acredito em sociedade civil organizada. Mas, cientificamente, a única assertiva válida é "não é possível afirmar que existam duendes, fadas, chupa-cabras, ETs ou sociedade civil organizada".

"Não é possível afirmar", infelizmente para os ateus e incrédulos de todas cores, inclusive os que rejeitam a sociedade civil organizada, NÃO IMPLICA o "portanto, devo negar".

Se tenho uma prova amanhã sobre matemática financeira, não sei nada sobre o assunto e peço a um deus que me ajude, parece que isso não faz diferença significativa nos resultados que obterei. Eu poderia pedir para uma estátua, para um pé-de-coelho, para uma ferradura. Mas nenhum desses fatos, aparentemente, interferem na nota obtida."

Isso pode ser fato se a variável "Conhecimento de matemática financeira" for igual a "Nada sei sobre o assunto". Mas e naqueles casos em que o estudante sabe tudo mas tem um "branco" na hora da prova? Você pode mesmo afirmar que uma oração prévia não reduz a incidência de "brancos" em estudantes que dominam um assunto? Caso a correlação exista, você pode provar que rezar para uma ferradura, um pé de coelho ou um Deus de uma religião qualquer é igualmente efetivo?

Bem, vamos começar reunindo uma amostra aleatória de estudantes de matemática financeira igualmente competentes e...

Resumindo, a abordagem ateísta é, na maior parte das vezes, irracionalista e anticientífica. Afirmam-se coisas questionáveis como se fossem evidentes.

Fora que, entre os exemplos que mencionei na postagem, incluí propositadamente o exemplo de um time de basquete (ou qualquer equipe esportiva) em que a presença do fator "motivação" não pode ser racional ou cientificamente desprezado. Pois bem, a hipótese ateísta reza que "Não há relação entre a realização de orações antes de partidas de basquete e a motivação do time durante o jogo". Para que essa hipótese seja considerada científica, é preciso testá-la contra a hipótese nula: "Há relação entre a realização de orações e o desempenho motivacional de uma equipe esportiva durante uma partida". Portanto, vamos pegar uma amostra aleatória de jogadores de basquete igualmente competentes e...

A Ciência é foda.
Afe... se deixar vou ficar aqui ad eternum... sobre estados laicos ou religiosos, eu realmente não considero válida proposições do tipo - os estados ateus são perversos porque isentos de um deus ou de nada adianta não ter um deus ou o contrário - os estados religiosos são hipócritas porque cruéis. Crueldade não tem a ver com religião e sim com política. O problema é que muitas vezes alguns governos possuem À frente chefes religiosos, mas não é a religião que está por trás que gera os horrores e absurdos. As pessoas misturam demais... outro dia vi alguém dizer que a China possuía um sistema perverso e que ali estava a prova de que o ateísmo e o comunismo eram cruéis. Em primeiro lugar, o sistema chinês sequer é comunista e sim capitalista como todos os demais (pagando dois dólares a cada trabalhador por dia, isso é o puro capitalismo na forma mais selvagem) e em segundo lugar, esse tipo de argumento é do tipo ad hominem... pega uma parte para explicar o todo. É como pessoas que viram e dizem - o vegetarianusmo não serve p/ nada, Hitler era vegetariano dãaaaaaa Infelizmente as pessoas misturam os canais e argumentam sem muita relevância. São declives escorregadios... é mudar totalmente o foco da coisa.

Vc tem que ver que tipo de postura exatamnete quer tomar e se quer tomar. Uma postura cética realmente irá supor que sequer podemos saber se existimos e se eu estou aqui diante do PC digitando essa resposta. Pode ser tudo uma ilusão ou,como mencionei no outro post - cérebros ligados a uma cuba.... Se vc quer tomar uma postura agnóstica estrita do tipo - nada posso saber sobre deus e com isso, invalidar todo o tipo de reflexão, então melhor fechar todas as portas do questionamento. Por ex - nada sei sobre deus, então a questão do aleijado está prejudicada. O.k, concordo, mas eu posso afirmar que durante a minha existÊncia, nunca vi um aleijado que tivesse se curado. A minha formulação contesta apenas a hipótese bíblica de deus e não o teísmo. Não podemos dizer se deus existe ou não, mas podemos dizer se aquela ou a outra hipótese que fala sobre um deus possui probabilidade de ser fato. Se você for um cínico ou estóico, deve aceitar que é possível sim,que o mundo tenha sido criado do leite do peito de Hera ou que a Terra esteja pousada nas costas de uma tartaruga. Afinal, assim como não podemos saber se deus existe ou não, também não podemos saber se estes fatos são verdairos. Mas ainda dentro dessa postura, você pode perguntar - "o.k, mas a tartaruga está pousada em quê?" ou seja, a impossibilidade de saber não te impede de contestar as multiplas teorias. Caso contrário, o pensamento ficaria engessado. A questão não é tão rasa como parece. Falamos mal da ciência, mas o nosso raciocínio está impregnado dela. Falamos mal da ciência, mas justamente nos irritamos por ela não ser tão científica quanto gostaríamos... saber que a própria ciência modifica os objetos em que toca, nos causa rancor e ódio contra esse método. Sabemos ao menos no caso dos aleijados, que para nenhum deles, rezar fez o membro crescer. Mas quem teve alguma doença curável e melhorou porque rezou não está mostrando a relação causal. É o non causa pro causa.

O perigo de ser agnóstico e achar que isso põe um ponto final é grande. Alguém decidiu que deus o enviou para matar todas as criancinhas do mundo. Ora nada posso saber sobre deus, nem se isso é verdade. Então vamos deixar o maluco agir. Esse meu exemplo é extremado, mas não absurdo. Pensemos no quanto esse tipo de discurso vem sendo usado sem causar nenhuma comoção... vamos chegar ao Bush, passando por Osama Bin Laden, loucos que cometem suícidios coletivos, igrejas que roubam de seus fiéis para garantir-lhes um lugar no céu e por aí vai.

Sobre a mat. financeira, como eu disse - aparentemente. Lidamos com probabilidade, não com certezas. A questão dos jogadores de basquete é muito clara. Todos sabemos e é bem óbvio, que uma oração não irá mudar os rumos do jogo. No máximo irá acalmar aquele jogador, atuará sobre ele, mas não modificará o que lhe é externo e depende de outros fatores, outras pessoas. É como a falácia do livro the secret, best seller. É claro que se eu imaginar algo e a força do meu pensamento é capaz de criar esse algo, por que nunca nenhuma criança conseguiu criar um unicórnio? E se todas as desgraças que recaem sobre mim são de minha própria culpa porque eu desejei isso, como explicar que os Incas tenham sido dizimados? Como foi que imaginando um deus branco que viria de dentro do mar salvá-los eles conseguiram materializar espanhóis sedentos por ouro e sangue? Esse tipo de teoria não me basta para explicar que 12 milhões de indivíduos pudessem sucumbir nas mãos de uma minoria. Não explica como um tipo de pensamento uau super-mega-hiper positivo de que eu vou conseguir esse emprego pode lidar com o pensamento super-hiper-mega positivo de outra pessoa dizendo - eu também, mas com licença, sou sobrinho do gerente do setor de cobranças.

Não estou preocupada em saber se deus existe. Estou preocupada em explicar o mundo que está (ou não) a minha volta e infelizmente a teologia não corresponde aos meus anseios.

bj grande.
alexiskauffmann wrote on Nov 3, '08, edited on Nov 3, '08
Afe... se deixar vou ficar aqui ad eternum...

Pode ficar ad nauseam.

sobre estados laicos ou religiosos, eu realmente não considero válida proposições do tipo - os estados ateus são perversos porque isentos de um deus ou de nada adianta não ter um deus ou o contrário - os estados religiosos são hipócritas porque cruéis.

A proposição não é essa, mas as seguintes:
1 - O ateísmo é tão intolerante quanto todas as outras religiões.
2 - Os estados laicos, ou agnósticos, têm maior probabilidade de tolerar a pluralidade do que os estados ateus ou religiosos.
3 - A História comprova, não é preciso teorizar: as perseguições nos Estados ateus foram tão cruéis quanto nas teocracias.
4 - O ateísmo não é moral nem eticamente neutro, não se preocupa em formar um ser humano mais tolerante ou uma sociedade mais plural. Ao contrário, em sua cruzada para converter os "infiéis", não poupa crueldade.

O problema não está em acreditar ou não deus, mas na certeza absurda de que se tem a posse e a propriedade exclusivas da verdade absoluta.

argumento é do tipo ad hominem... pega uma parte para explicar o todo.

O argumento que pega uma parte para explicar o todo tem outro nome. Argumento ad hominem é aquele voltado à pessoa que o enuncia. Foi o Lula que disse, logo deve ser mentira (ou verdade, depende do que você acha do Lula).

Uma postura cética realmente irá supor que sequer podemos saber se existimos e se eu estou aqui diante do PC digitando essa resposta.

O ceticismo científico é diferente desse tipo de ceticismo exatamente no ponto em que ele se rende à evidência, embora sempre admita a probabilidade de correção mais adiante.

nada posso saber sobre deus e com isso, invalidar todo o tipo de reflexão, então melhor fechar todas as portas do questionamento. or ex - nada sei sobre deus, então a questão do aleijado está prejudicada. O.k, concordo, mas eu posso afirmar que durante a minha existÊncia, nunca vi um aleijado que tivesse se curado.

Se "nada posso saber sobre Deus", logo, em português de botequim, tudo o que eu disser será chute.

Admitindo a hipótese de que exista um Deus e que nada possamos saber a respeito d'Ele, é muita pretensão querer deduzir suas supostas intenções, pretensões, pensamentos, sentimentos.

O religioso apenas pode torcer para que tal Deus seja bom e nos ame a todos. Porque, se não for, aiaiai...

Uma vez fiz uma experiência, num bar. Pedi ao interlocutor que fechasse os olhos por um momento e imaginasse a si mesmo onipotente, onipresente, onisciente, criador do Céu e da Terra, o Fodão do Bairro Peixoto do Universo, o Imbatível Rei da Cocada Preta Cosmológica.

Depois pedi que abrisse os olhos e perguntei:

- É pra ter medo desse cara ou não é?

Resposta do bebum: PUTAQUEPARIU!!!!

Faça você também esse teste.

Se você for um cínico ou estóico, deve aceitar que é possível sim,que o mundo tenha sido criado do leite do peito de Hera ou que a Terra esteja pousada nas costas de uma tartaruga. Afinal, assim como não podemos saber se deus existe ou não, também não podemos saber se estes fatos são verdairos.

A questão da tartaruga se resolveu com o lançamento de foguetes e satélites espaciais.

Sobre o leite do peito de Hera, a julgar pela composição química do mundo, que leite ruim, hein? Não foi à toa que ela deu à luz a um deus coxo!

a impossibilidade de saber não te impede de contestar as multiplas teorias. Caso contrário, o pensamento ficaria engessado.

A impossibilidade de saber não engessa a imaginação. Mas engessa o pensamento científico sim.

Mas quem teve alguma doença curável e melhorou porque rezou não está mostrando a relação causal. É o non causa pro causa.

Aí está o engano. Nesse argumento, você supõe perfeito conhecimento de todas as variáveis interventoras sobre um fenômeno. A ciência não supõe isso. Ela isola algumas variáveis e mede o grau de intervenção sobre o fenômeno enquanto procura manter todo o resto constante.

Por exemplo, quanto tempo um litro de água leva para ferver? Isso depende de mais coisas do que o tamanho ou temperatura da chama. Qual a temperatura ambiente? Qual a temperatura inicial da água? Qual a temperatura inicial, o formato, o material do vasilhame? Aliás, esse vasilhame está tampado ou destampado? E vai por aí.

Mesmo que você consiga isolar o maior número de variáveis possível - lembra do modelo de "máquina pensante" que propus em outro post? - você vai conseguir explicar apenas 99,999...% desse fenômeno. Na experiência prática sempre vai sobrar espaço para alguma variabilidade nos resultados, que poderão ser explicados tanto por imprecisões nas medidas quanto pelo trânsito de Saturno pelo Arcano XVII.

O perigo de ser agnóstico e achar que isso põe um ponto final é grande. Alguém decidiu que deus o enviou para matar todas as criancinhas do mundo. Ora nada posso saber sobre deus, nem se isso é verdade. Então vamos deixar o maluco agir. Esse meu exemplo é extremado, mas não absurdo.

É absurdo. Porque se tal abominação vem de um Deus, então tal Deus é abominável e, portanto, deve ser combatido, ainda que sem chance de vitória.

Se Deus for como descrito na maioria das religiões, ficarei feliz em não ser bem-vindo ao Céu.

Afinal você pode até ser o General da Banda ou o Bambambam de Curiacica. Mas isso não é desculpa para crueldade, genocídio, etc.

A questão dos jogadores de basquete é muito clara. Todos sabemos e é bem óbvio, que uma oração não irá mudar os rumos do jogo.

Não é óbvio. Pode mudar. Ninguém pode dizer que a oração (ou meditação, ou...) não mobiliza recursos no organismo do atleta que, empregados durante uma partida, podem decidir o seu resultado. Aliás, há evidência de que muda sim. Algum grau de ansiedade aumenta o desempenho, ansiedade em excesso reduz. Se a oração a um Deus reduzir mais a ansiedade de meu time de basquete do que a oração a um pé-de-coelho, e minha intenção for ganhar o campeonato, todo mundo de joelho aí que é hora da reza!!!

É como a falácia do livro the secret, best seller. É claro que se eu imaginar algo e a força do meu pensamento é capaz de criar esse algo, por que nunca nenhuma criança conseguiu criar um unicórnio?

Essa é outra interpretação pobre, tão pobre quanto a anterior, e desprovida de fundamento científico. A qualidade do pensamento altera sua percepção, isto é, o processamento das informações que recebe do ambiente.

Se você segue uma estrutura de pensamentos predominantemente negativistas, tende a ver toda a realidade como negativa e, portanto, tem dificuldade extrema em vislumbrar oportunidades. Simplesmente mudar sua sintonia mental para "ok, esta situação é terrível mas sei que posso encontrar uma solução para ela" já permite que você aborde cada informação nova sob uma perspectiva diferente e aumenta a probabilidade de que, ao fim de algumas tentativas, você obtenha exatamente o resultado que desejava.

Nesse ponto, o pensamento mágico - nisso incluímos as religiões e correntes esotéricas e de auto-ajuda como a d'O Segredo - apresenta uma vantagem que o pensamento científico JAMAIS terá. O pensamento mágico permite que o indivíduo escape ao "loop" de percepções negativas que embotam sua capacidade de imaginar soluções criativas.

O próprio pensamento científico, aliás, não prescinde do pensamento mágico, a tal da "imaginação". O cientista sempre parte da perspectiva otimista de que, sim, é possível explicar aquele fenômeno. A partir daí, ele se põe a imaginar possíveis métodos para explicá-lo.

O problema d'O Segredo é que ele sugere, ainda que de forma não-explícita, que o pensamento mágico é suficiente. Não é. Mas nem por isso é inútil.

Não estou preocupada em saber se deus existe. Estou preocupada em explicar o mundo que está (ou não) a minha volta e infelizmente a teologia não corresponde aos meus anseios.

Claro que está preocupada em saber que Deus não existe. Senão, não estaria tão ocupada em demonstrar porque a teologia não corresponde a seus anseios.
arabesc wrote on Nov 4, '08
Kauffmann argumento ad hominem pode ser do tipo abusivo... e pega a parte pelo todo... era a esse tipo de argumento que me referia. Por ex - Hitler era cristão e isso prova que o cristianismo é cruel. Ou Trótski era comunista e colocou um bando de gente no paredão, logo o comunismo não presta. Fulano era ateu e era mau, logo todos são. É esse tipo de pensamento que gera falácias do tipo - os Estados ateus foram cruéis, logo o ateísmo é um sistema de pensamento cruel. Realmente não tem nada a ver. Cruel talvez seja você impor um tipo de pensamento... os estados religiosos fazem isso.... os ateus impuseram a ausência de religião... talvez apenas tenham se aproximado no que diz respeito ao radicalismo, á imposição. O erro está aí e não no conjunto de crenças especificamente.
A ciência anda pelas beiradas... ela não é precisa. Não estou defendendo a ciência, conheço os problemas do método, mas o problema é que as pessoas conferem à ciência precisão... e daí se decepcionam. Lógico, infelizmente isso não existe. É um método que trabalha com aproximações. Mesmo os cálculo da gravidade e da velocidade são aproximados em condições ideais que na natureza não existem (talvez num buraco negro, mas nem isso sabemos. Nunca estivemos em um). Infelizmente as pessoas deram à exceção o nome de MILAGRE, apenas porque não podem ser previstas.
Quando fala do jogador, você se prende mais ao que uma oração pode fazer com o indíviduo que rezou... mas apenas um jogador sozinho não faz uma partida. Se ninguém do time treinou, aquele indivíduo rezou e se acalmou ou ganhou confiança, certamente essa confiança vai por água abaixo diante do time adversário, com todos a equipe bem treinada e fisicamente preparada. Uma coisa é você dizer que se curou porque rezou. Mas experimenta rezar para acabar com o efeito estufa, com a guerra do Iraque, com a AIDS das crianças africanas. Estou dizendo - rezar, apenas isso, como fazem alguns monges orientais. Não levantar mais nem uma palha. Bem, eu tô fora de perder o meu tempo. Prefiro usar a minha energia com algo mais prático, mas quem quiser tentar... boa sorte.
Isso mostra que frases do tipo - "ora que melhora" são non causa pro causa. Melhora em que sentido? O que melhora??? As pessoas falam com autoridade, mas não têm como provar.
Filosofias como THE SECRET são inconsistentes e se prestam à materialização dos pensamentos. Esse tipo de crença é bem antiga e está presente em religiões ocultistas, porém é oferecida como uma grande novidade apenas porque se revestiu de uma capa moderna. Esse tipo de proposta é bastante conveniente para o mundo em que vivemos, pois se presta a culpar os próprios indivíduos pelos seus fracassos. Olha, você tem contas para pagar no final do mês porque não teve competência o suficiente de imaginar um cheque chegando pelos correios. Você está desempregado? A culpa é sua, quem mandou não ter fé. Eu nunca precisei desse tipo de conto da carochinha para escapar do negativismo. Minha imaginação pode ser mover graças aos filmes de ficção, à literatura, à música e à dança. Essas ferramentas me ajudam a construir perspectivas criativas de solução para o meu dia-a-dia. Não preciso achar que sou deus nem ter um surto megalomaniáco de pensar que sou capaz de criar uma ferrari com o poder da minha mente e amanhã o carro vai estar na minha garagem. Não deu certo? Problema é teu. Não imaginou o suficiente. Se parar para pensar, há muito da ética protestante ali... talvez pura ética protestante. Quase todos os exemplos são da ordem material, mais propriamente da ascensão financeira. Como qualquer religião, busca explicar somente um mundo, uma cultura...
Sobre o mundo pousado numa tartaruga, você se valeu de um exemplo científico - o homem já foi ao espaço e viu a coisa como ela é. Será? Você já foi lá e viu??? Acredita no que te falaram??? Será que não erraram ou não viram direito? Como vc mesmo disse - esse é um método pouco confiável. Quem sabe quando os chineses voltarem (já voltaram??/) eles nos digam que viram a tartaruga que de tão pequena ninguém ainda tinha enxergado.
Sobre o maluco que decide matar as criancinhas, pois é , eu também penso assim. Mas e Abrãao? Não foi cruel tentando imolar seu próprio filho??? Para um crente não. Esse é o tipo de problema do pensamento religioso que podemos apontar - o religioso sempre abre exceção para tudo...
Realmente não estou preocupada em saber se um deus existe. Se um dia me mostrarem uma religião que realmente faça algum sentido ou que se aproxime de um sentido, eu a adoto ainda que parcialmente... ainda que com desconfiança, como faço com a ciência. Mas do jeito que a coisa é, não dá nem para desconfiar...
abração.
alexiskauffmann wrote on Nov 4, '08
arabesc said
Eu nunca precisei desse tipo de conto da carochinha para escapar do negativismo.
Bilhões de pessoas precisam. Uma coisa que as ciências humanas ensinam é que "eu e todos os meus amigos, parentes e conhecidos" não é uma amostra significativa. Aquele erro de tomar o todo pela parte.
arabesc wrote on Nov 4, '08
Bilhões de pessoas precisam. Uma coisa que as ciências humanas ensinam é que "eu e todos os meus amigos, parentes e conhecidos" não é uma amostra significativa. Aquele erro de tomar o todo pela parte.
Esse é o problema de criticarmos a ciência... criticamos a ciência com argumentos científicos ou simplesmente a atacamos porque a ciência não é suficientemente científica. É como se caíssemos em nossas próprias teias. Se criticamos a lógica, devemos pensar se estamos usamos de lógica para fazer isso. Refletir não é tão simples, dói pra cacete e a religião oferece soluções prontas, explicações pré-formuladas, digeríveis e palatáveis. São explicações de mundo preparadas. A ciência, pelo menos, admite que erra e que Plutão nunca foi planeta. A religião nem isso. Não acredito que todos precisam disso, que seja um coisa genética. Religião é aprendido... as pessoas aprendem a precisar disso e se viciam nesse tipo de pensamento. Como fui criada sem religião, sem frequentar igrejas, aprendi a ir ao cinema nos domingos. Ou seja- pouquíssimas pessoas tiveram a chance que eu tive em um mundo como o nosso - miserável que se constrói na base da amoralidade e da exploração do próximo. Talvez no fundo sequer haja tanta diferença entre mim e os carolas de igreja. Temos vícios diferentes, mas assim como eles, corro o risco de me entorpecer. A única diferença, talvez, é que busco coisas que posso conhecer um pouco mais, meus objetos de prazer são mais delimitados. Mas em última análise, todos vamos bater na cova fria, como dizia Patativa do Assaré. Um bj grande.
alexiskauffmann wrote on Nov 5, '08
arabesc said
Esse é o problema de criticarmos a ciência... criticamos a ciência com argumentos científicos ou simplesmente a atacamos porque a ciência não é suficientemente científica.
Não estou criticando a Ciência. Estou demonstrando a falta de cientificidade do ateísmo, que apenas empresta termos da Ciência na vã tentativa de racionalizar algo que é, basicamente, um fenômeno subjetivo, relativo a sentimentos.

Os ateus não toleram certas conseqüências da religião. Ok!
Outros bilhões de pessoas não só toleram, como gostam e não conseguem viver sem ela. Ok!

Por que um não consegue deixar o outro viver em paz? Não conseguem. Religiosos querem converter ateus (ou condená-los ao inferno ou, no limite, queimá-los na fogueira) e ateus desejam EXATAMENTE A MESMA COISA.

A merda é essa atitude de "eu estou certo, você está errado, portanto você é (intelectualmente, emocionalmente, culturalmente, espiritualmente) inferior a mim".

Estou demonstrando aqui repetidamente, tanto no post quanto em cada um dos replies, que o fundamento do ateísmo não é a Ciência, mas a atitude irracional básico de racionalizar sentimentos. Apenas isso, tão somente isso, não há outro assunto.

Falta uma abordagem científica da religião, do fenômeno religioso. Os ateus se satisfazem com explicações ridiculamente simplistas, sem nenhum fundamento em estudos rigorosos, ao estilo "pessoas que preferem viver na ignorância", ignorando, eles mesmos, a verdade psicológica do fenômeno religioso.

Fazem afirmações sem provas como "eu poderia rezar para um pé de coelho".

Fazem negações apressadas como "não há relação entre o ato de um jogador rezar e o resultado de uma partida de basquete".

Trata-se de verificar sem achismos, cientificamente, o que efetivamente ganham os bilhões de indivíduos adeptos às múltiplas religiões quando trocam a "superioridade científica" pela "ignorância da religião".

Vamos verificar. Verificar primeiro, explicar depois, essa é a regra da Ciência. Os ateus explicam primeiro, com explicações mágicas mal disfarçadas pelo uso de um vocabulário pomposo, pretensamente científico, e JAMAIS VERIFICAM O QUE AFIRMAM.

"Não era um OVNI, era um fenômeno atmosférico XYZ".

É mesmo? Como podem saber? Estavam lá? Usaram seus métodos e instrumentos científicos para avaliar o fenômeno no momento em que ocorreu com a máxima precisão possível?

A propósito, não é perfeitamente racional considerar a hipótese de que um suposto OVNI possa ser confundido com um suposto fenômeno atmosférico?

Irracionalmente, a primeira atitude dos tais cientistas (eles não são a Ciência, vale lembrar) é de uma antipatia extrema. Desacreditar o enunciador, chamá-lo de mentiroso, lunático, ignorante ou alucinado. Sem jamais parar para verificar se essas premissas são verdadeiras.

Em vez disso, poderiam ser simpáticos: "É certo que fulano disse que viu alguma coisa que se parece com um OVNI. Vamos verificar, portanto, o sujeito que disse. Em seguida, analisar o que foi dito para ver qual explicação".

Se não pudermos verificar o que o fulano disse, então a ÚNICA COISA QUE PODEMOS AFIRMAR CIENTIFICAMENTE é que o fulano disse que viu um OVNI. Todo o resto é especulação, tanto da parte de ufologistas crédulos quanto de supostos cientistas incrédulos.
alexiskauffmann wrote on Nov 5, '08
arabesc said
Religião é aprendido... as pessoas aprendem a precisar disso e se viciam nesse tipo de pensamento.
Você pode demonstrar cientificamente a verdade desse pressuposto ou é apenas uma profissão de fé?

Faço essa pergunta tendo estabelecido que o argumento "Como fui criada sem religião, sem frequentar igrejas, aprendi a ir ao cinema nos domingos." definitivamente não é científico, é apenas a expressão de uma experiência individual (cuja veracidade, aliás, precisa de verificação científica).
alexiskauffmann wrote on Nov 5, '08, edited on Nov 5, '08
arabesc said
A ciência, pelo menos, admite que erra e que Plutão nunca foi planeta.
Eis mais um exemplo de irracionalismo antropocêntrico. Plutão é um ente com existência independente. Portanto, sempre foi exatamente o que devia ser, ignorando impavidamente tudo o que seres microscópicos autonomeados astrônomos ou astrólogos que vivem a milhões de quilômetros de distância diziam que ele era, é ou deixa de ser.
ricardodarede wrote on Nov 7, '08
"- Se deus opera milagres, se tudo é possível para aquele que crê e se aquele que padecer de um mal rezar com fé será curado, por que deus nunca curou um aleijado?"
Essa preocupação é muito comum como argumento. Mas também mostra uma forma muito humana de ver Deus. Para todas as religiões sobre as quais li, sua proposta final é, como a própria palavra diz, religar o adepto, religar à algo do qual se separou - para ser bem genérico. Para isso ela propõe uma teologia ou filosofia, práticas rituais, práticas sociais entre outras, para criar uma atmosfera de comunicação entre as duas partes separadas. Nesse contexto, ambas as partes querem voltar à unidade, mas aquela que nos diz respeito e teria um sentido (o espírito que anima o corpo - para os não niilistas,) encontra resistência no mundo diante das escolhas possíveis, o que não mudaria a vontade de Deus de nos ver retornar, mas que por motivos Seus deveriamos ser um meio (não sei se posso dizer assim) para que Ele exerça nessa realidade alguma expressão provisória. Com a imagem humana de Deus produzida por nossa razão, em seu estado simplório, não vemos muito sentido em um aleijado não deixar de ser aleijado caso pudesse. Também seriamos levados a medir o quanto de fé é necessário para alcançar uma cura, me medir a eficácia de uma oração e.. bom, por fim , dando consequência a esse tipo de raciocínio mundando e materialista, se alcançassemos essas medições, todas as orações seriam resumidas em uma única oração, aquela que mais curou; todo o homem doente seria resumido em um, o mais saudável e realmente os niilistas teriam razão, não há o menor sentido em nada, porque se você pode ser branco e eu preto e isso fazer sentido, se eu posso se homem e você mulher e isso fazer sentido, só não faz sentido alguém ser aleijado da perna para quem não quer... perder uma. É um raciocínio muito imediato, típico do homem.

Mas pergunte para uma criança (muito respeitada pelas religiões que conheço por ter menor distância na separação entre as partes) por que é que ela derruba o castelo de areia que ela levou muito tempo levantando na praia. Para construir outro melhor, maior etc... com a mesma areia.

É fácil não acreditar em Deus, num deus, por que hoje acreditamos apenas no que podemos criar segundo um "pragmatismo inútil", e o deus que podemos criar com nossa psicologia é um deus regido por princípios lógico, e o submetemos a nossa ordem, um deus completamente aleijado.
Talvez exista mais de Deus exatamente onde algo não faça sentido.

Abraços
mulherdevime wrote on Nov 1, '08
uma m****. essa tendencia que todos os seres humanos temos de aplicar os nossos proprios standards e a nossa visao do mundo a tudo e todos que nos rodeiam. E dai ficar tentando racionalizar usando ciencia.
arabesc wrote on Nov 3, '08
E dai ficar tentando racionalizar usando ciencia
Que também usa standads e visão de mundo de uma certa cultura. Não tem jeito. São problemas epistemológicos sem solução. É o durma-se com esse barulho mesmo.... :-(
ariadnagaribaldi wrote on Nov 3, '08
Amei o texto e as discussões. Pena que perdi, mas que bom que pude ler agora. Eu até hoje não conheci pessoalmente nenhum ateu verdadeiro. Todos os que conheci eram (ou são) mais ou menos assim: Sou ateu, graças a Deus, rsss. Bom, cada um tem o direito de crer ou descrer.

"A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não vêem"

Beijinhos (beijos na Geh e nos meninos!)

Ada
ricardodarede wrote on Nov 7, '08, edited on Nov 7, '08
Estou ressuscitando o tema de um post antigo porque estou cada vez mais de impaciente com a retórica desinformada da comunidades de ateus da web, tão chatos quanto aquele pessoal que vem bater à minha porta domingo de manhã para salvar minha alma.

Vou começar traduzindo um comentário que fiz originalmente em inglês meio castiço, em um blog que é muito bom quando não começa com o blablabla ateísta:

"Estive lendo suas postagens já por um bom tempo e só recentemente cheguei a uma conclusão.

Sei que você vai me odiar por isso, mas ei-la:

(1) A Ciência é cética, não ateísta. Qualquer um que procure na Ciência uma justificativa ou fundamento para sua ideologia ateísta deveria aprender um pouco mais sobre Ciência,

(2) O ateísmo é, portanto, uma religião como outra qualquer, cheia de certezas irracionais e vazia de qualquer outro fundamento que não seja o desejo dos ateístas de NÃO crer em Deus.

Eu disse que você me odiaria por isso, mas esses seus argumentos estão ficando cada vez mais repetitivos e desinformados.

As melhores coisas que a Ciência pode fazer sobre Deus são declarações céticas como "Não há nada que podemos afirmar sobre esse assunto", "esse assunto de Deus não é sujeito a estudos científicos", etc.

Mesmo que um cientista, ou muitos cientistas, ou mesmo TODOS os cientistas declarassem publicamente suas visões de mundo ateístas, isto não seria suficiente para afirmar que a Ciência propriamente dita é ateísta.

A Ciência, muito diversamente das religiões (inclusive o ateísmo) não finge que sabe cada pequena coisa no Universo. Ela é movida pela simples (e fantástica) ambição de aprender, no longo prazo, tudo o que é possível de ser conhecido no Universo.

A Ciência não exclui a hipótese de que, talvez, haja coisas que existem mas, infelizmente, não sejam possíveis de conhecer com qualquer método ou instrumento concebivel, agora ou em qualquer tempo no futuro.

Assim, cientificamente falando, as pessoas precisam aceitar que sempre poderá haver algo como um "Deus" nesse hipotético conjunto de coisas existentes mas incognoscíveis.

Antes que alguém grite: eu não estou defendendo a religião. Se Deus é no reino das coisas incognoscíveis, então todas as religiões são contrafações, pois fingem conhecer intimamente algo que elas não podem saber de maneira alguma!"

Indo além: só quem nunca trabalhou produzindo Ciência, nunca leu uma revista científica ou sequer uma bula de remédio, acredita que a Ciência "prova" a não-existência de Deus.

Para começar, ver a Ciência provando inequivocamente alguma coisa não é um evento tão freqüente quanto sugere a Superintessante.

Quem já trabalhou um pouquinho que seja sob a vara do método científico, sabe muito bem que produzir Ciência é, na sua maior parte, um trabalho de aproximações, estimativas, probabilidades e margens de erro. O discurso científico é enunciado necessariamente sob o império de definições restritas - a Ciência deixa para os filósofos o encargo das definições amplas. A verdade da Ciência é contingencial, isto é, válida apenas sob um determinado conjunto de circunstâncias variáveis. Mude as variáveis e a verdade muda.

Depois, a própria Ciência se encarrega de definir os próprios limites. Vamos deixar de lado a impossibilidade - "cientificamente demonstrada" - de saber a posição exata de partículas subatômicas, e vamos para o prosaico reino das mesquinhas preocupações humanas. Pergunte a cientistas bem-informados se...

1 - É possível prever se vai chover em Pindamonhangaba no dia de meu aniversário no ano de 2047?
2 - É possível calcular antecipadamente o placar de uma partida de basquete?
3 - É possível dizer se você será vítima de um assalto em algum dia dos próximos 5 anos?
4 - É possível afirmar que algum dos leitores deste post ganhará algum prêmio na Mega Sena nos próximos 10 anos?

Nem preciso dizer qual será a resposta para todas as perguntas.

A Ciência só pode afirmar que, com grande probabilidade, vai chover algumas vezes em Pindamonhangaba entre hoje e 2047. Pode até estimar quantas vezes e errar por pouco.

A Ciência também permite prever qual o time tem maior chance de ganhar uma partida basquete.

Também pode calcular a probabilidade de que alguém sofra um assalto num período de cinco anos a contar de hoje.

Ou ainda, a probabilidade de que pelo menos uma pessoa, em um dado conjunto de pessoas, ganhe algum prêmio na Mega Sena nos próximos 10 anos.

As singelas perguntas acima, da maneira como estão formuladas, envolvem variáveis demais, sendo que muitas dessas variáveis não são sequer quantificáveis.

Por exemplo, o placar de uma partida de basquete depende, além de incontáveis milhões de variáveis objetivas, da "motivação" dos jogadores e da equipe. Como inserir uma variável tão volátil como a "motivação" (um time motivado no primeiro quarto pode virar subitamente um time desmotivado no segundo quarto, como quem já assistiu qualquer partida de qualquer esporte pode testemunhar) em um modelo que permita uma margem mínima de previsibilidade?

Mesmo com todo o inegável avanço da Ciência, foguetes explodem antes de serem lançados, aviões cheios de passageiros caem, pessoas são atingidas por raios e até cardiologistas conceituados morrem de enfarte.

Um argumento recorrente e muito mal empregado pelos ateus na defesa de suas teses é o princípio de Occam: "quando duas teorias concorrentes podem ser ambas adequadas para explicar um dado fenômeno, deve-se preferir a mais simples".

O princípio de Occam é prático. Mas significa apenas que, à falta de um critério melhor, deve-se utilizar a explicação mais simples até que novos dados sugiram o contrário, e NÃO que a explicação mais complexa seja necessariamente falsa em todas as ocasiões! Trata-se apenas de uma regra de bom-senso para guiar ações em situações de incerteza.

Outro dado que os ateus esquecem em seus discursos inflamados quando citam as realizações tecnológicas como provas da superioridade da Ciência é que, de fato, NÃO é necessário saber exatamente como e porque uma coisa funciona para que ela possa funcionar!

Besouros voam sem saber aerodinâmica, patos flutuam sem saber nada sobre construção naval.

E na bula do remédio cientificamente produzido pela indústria farmacêutica e cientificamente receitado pelo seu médico, provavelmente vem escrito uma frase como "o mecanismo de ação da [NOME DO COMPONENTE DA FÓRMULA] não é bem conhecido..."

Há muito mais besteirol no discurso ateísta, mas vou parando por aqui. Acho que, por hora, podemos afirmar que é preciso saber muito pouco sobre Ciência em geral para afirmar que ela "prova" que Deus não existe e que, portanto, os ateus não são menos cegos do que o fiel rebanho da maioria das religiões que tanto criticam.
E ai old friend?

Entender esse ponto (ceticismo cientifico e atéismo) parece fundamental para quem gosta, quer e/ou precisa entender à si mesmo fora de um contexto teísta mas não tem muitas diretivas que se liguem de forma coerente. À deriva, o maior perigo é ser obstinado demais; e acho que acontece isso com muitos que se assumem ateístas nesses moldes que você desenhou. Mas comentando essa desagradável confusão sobre a tal característica da ciência (o ceticismo):

Na suruba globalizada do mundo de hoje, muitos, mas muitos mesmos, se auto proclamam budista, induísta, muçulmano etc. se baseando quase que exclusivamente no estereótipo do adepto daquela religião. Um consumismo religioso se aceitar assim. Consomem a religião e seus símbolos (ou a falta dela) como opção para formar um estilo bem característico, ou se beneficiarem do que é consequênte ao adepto praticante (como equilibrio, por exemplo). Para os que fazem suas escolhas dessa forma, à fazem prá lá de infundadas. Imagino que devam receber muitas críticas e perguntas que a deixem desconcertadas mas, em uma rápida busca no Google se encontra muitas referências entre (já que você citou as partículas sub-atômicas :-)) o Budismo e a Quântica, que vem ratificando alguma das suas idéias. Mas quando se escolhe uma religião para satisfazer algo que não seja uma disposição sincera, sagrada, então o que se deseja é ter argumentos para não parecer fútil. Nessa hora o entendimento para numa preguiçosa conclusão: Se a ciência vem ratificando uma religião que de uma forma geral não concebe uma imagem de Deus , então a ciência prova que Deus não existe.

Isso ajuda muito a imaginarem que a ciência apoia o ateísmo. Se bem que essa relação tosta já vem muito antes da quântica e do "budismo globalizado". Mas para defender o ego muitas idéias destinadas à falência acabam sobrevivendo e ganhando seu espaço. A própria Quântica é questionada por físicos clássicos, e por ai vai. Mas se satisfaz a argumentação preguiçosa dos consumistas religiosos, infelizmente pouco importa o que pode haver de sagrado na disposição interna que move alguém para uma determinada fé.

Enfim, queria participar desse tópico :-)
Abração!!
ricardodarede wrote on Nov 7, '08
Agora, terminando de ler os demais comentários, acho que fui redundante... mas :-)

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